quarta-feira, 1 de julho de 2015

Versão negra de profetas, reis e anjos

Fotógrafo lança projeto com versão negra de profetas, reis e anjos

E se os personagens bíblicos fossem todos negros?

por Jarbas Aragão

Fotógrafo lança projeto com versão negra de profetas, reis e anjos

E se os personagens bíblicos fossem todos negros? 

Quase todas as representações dos personagens bíblicos ao longo da história mostra homens e mulheres da raça branca. Embora não se tenham relatos detalhados de como era a aparência dos profetas, reis e outras pessoas cuja história é contada na Bíblia, o mais provável é que eles tinham a cor de pele parda, típica do Oriente Médio.

Existem ainda menções claras a negros e sabe-se que parte da trajetória dos judeus e da vida de Cristo ocorreu na África.

O Fotógrafo James C. Lewis, do estúdio N3K Foto Studios, de Atlanta, decidiu provocar uma discussão, apresentando estas figuras conhecidas sob uma nova perspectiva. Sua mostra “Ícones da Bíblia” revela sua leitura de vários personagens famosos do Antigo e do Novo Testamento, incluindo o apóstolo Pedro, o profeta Elias, o rei Salomão e até anjo Gabriel.

A série apresenta 70 modelos, na sua maioria negros. “Eu acho muito importante a pessoa ver a si mesmo na Escritura para que ela possa se tornar real a seus olhos”, explicou Lewis, que é negro, ao The Huffington Post.

“As imagens clássicas da Bíblia sempre me incomodaram. No entanto, estou feliz por ter a oportunidade de apresentar um ponto de vista diferente”.

O artista explica que não pretende oferecer uma visão perfeita ao representar as figuras bíblicas sendo negras, mas quer provocar uma discussão sobre a natureza das imagens religiosas cristãs.

“Eu gostaria de dar mais cor às páginas bíblicas da história. Ao fazê-lo, espero abrir as mentes e os olhos dos ignorantes e criar conversas francas sobre como podemos aprender a ver o mundo através de lentes coloridas. Afinal, o Evangelho de Jesus Cristo é destinado a todos”.

Anjo Gabriel negro

O anjo Gabriel.

Profeta Samuel negro

Profeta Samuel.

Rebeca negra

Rebeca, esposa de Isaque.

Embora nas imagens divulgadas do projeto não há um Jesus negro, o assunto é debatido há décadas em alguns círculos teológico, sendo abundante o debate que a representação de Jesus como um homem branco (muitas vezes de olhos e cabelos claros) perpetua um viés racista da pregação durante o século 18 e 19, e que se perpetuou em adaptações para cinema e TV da história de Cristo.

Fontes Gospel Prime; The Huffington Post.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Cartas de uma angolana para um amigo brasileiro (01)

 

Dunga post

O que Dunga disse foi uma confissão pública daquilo que os brancos brasileiros acham dos seus compatriotas afrodescendentes. Não foi "ato falho" foi exteriorização de um sentimento bem verdadeiro que saiu numa hora em que estava realmente magoado por tanto ter apanhado.

Aqui em Angola onde existem várias línguas nacionais e alguns têm vergonha de as falar (fruto do colonialismo) os mais velhos dizem o seguinte: -"É na hora de muita dor que cada um chora na sua língua materna e aí se descobre de que região o indivíduo é" o racismo faz parte da língua materna do Dunga. Por isso ele falou que, apanha que nem afrodescendente. Assumiu seu racismo. Apenas se equivocou quando disse que afrodescendente gosta de apanhar. Negro não gosta de apanhar, eles é que gostam de bater cruelmente em seres humanos semelhantes, porque se julgam superiores.

Tem agressão maior do que tirar os negros da sua terra natal, escraviza-los durante séculos, jogá-los numa praça pública sem eira nem beira (a tal de abolição) e depois continuar a massacrar por séculos os seus descendentes? E depois um descendente daqueles escravizadores diz que afrodescendente gosta de apanhar? ? Pelo amor de Deus! ! Dunga deveria ser processado por injúria racial e difamação. Difamação por ter mentido que afrodescendente gosta de apanhar. Ele deveria demonstrar provas de como os afrodescendentes gostam de apanhar. E para terminar gostaria de dizer que ser afrodescendente não se acha que é, apenas se é.

Dizer que acha ser um afrodescendente é uma verdadeira agressão ao estado de quem o é de fato. Minha solidariedade aos meus irmãos afrodescendentes espalhados pela Diáspora.”

 

Judith Luacute Judith Luacute

de Luanda – Angola

Judith Luacute é enfermeira formada na USP, graças ao intercâmbio cultural e de cooperação entre Brasil e Angola.  Trabalhou 15 anos consecutivos em hospitais brasileiros na cidade de São Paulo, onde adquiriu a experiência que dá suporte ao seu trabalho em Angola.

Ícone de profissionalismo em seu país, uma mulher moderna, que não esqueçe de cultuar as tradições e tem seu coração imensa ponte entre Angola e Brasil.

Olorum me perrnita celebrar um dia sua presença, amiga, irmã virtual nossos posts são cartas unindo corações almas através do Atlântico. Resgates…

Hugo Ferreira Zambukaki – São Paulo – Brasil

Cartas para minha irmã angolana

Histórias que você conta são significativas Judith Luacute. Tenho um momento que ao relembrar as lutas, numa reunião as emoções embargavam minha fala e marejavam meus olhos. Josi companheira e esposa registrou em vídeo minha fala emocionada
Momentos não escritos em livros, mas infelizmente vivenciados por nós em nossas vidas, e esses nossos depoimentos deveriam ser registrados para não serem esquecidos. Por serem nos magoarem ferem nossos sentimentos.
A Universidade de São Paulo, surgiu de uma derrota militar do estado de São Paulo perante a Ditadura Vargas. A Revolução de 1932 teve em suas fileiras inúmeros negros e índios, não só em batalhões formados de voluntários, mas nos quadros do Exército Brasileiro que lutaram contra a Ditadura.
O negro brasileiro escravizado, buscava uma forma recuperar sua liberdade e restaurar sua cidadania. O Exército desde a Guerra do Paraguai (1864/1870) contou com uma maioria de soldados negros. Participar do Exército era uma forma dos negros e pardos livres se inserirem na sociedade brasileira. A Escola Militar de Resende RJ formou oficiais militares vindos das camadas populares (década de 20 e meados de 30). O subcomandante militar de São Paulo era o coronel Palimércio de Resende negro.

 Coronel Palimercio Coronel Palimércio de Resende subcomandante da Revolução de 1932 em São Paulo

Meu pai tenente Ferreira foi dos tenentes revolucionários que lutaram contra a Ditadura, teve sua perna metralhada e só não ocorreu a amputação porque fugiu do hospital no dia marcado. Sobreviveu e nasci em 1946.

Tenente Ferreira e companheiros de farda (185x260) (276x389)

Tenente Ferreira (José Ferreira da Silva meu pai) ao centro assinalado com companheiros de farda “tenentistas” .

Perdida a Revolução de 32 contra a Ditadura, a elite criou um projeto de formar lideranças da burguesia paulista, surgia aí a USP a Universidade de São Paulo.
Se na Revolução de 1932 havia espaço para as classes populares (negros, índios e pobres) lutarem, não havia espaço na Universidade criada. Daí a surpresa do segurança negro em barrar sua entrada. Quem lutou e derramou o sangue por São Paulo é barrado em entrar na USP pela profunda desigualdade social que existe no Brasil.
Posso dizer que a situação piorou desde a sua vinda, tive contato com jovens estudantes angolanos, amigos de Zulmira Cardoso a jovem morta em 2012 por racistas brasileiros no Brás, e um deles me dizia: “-Conheci o que era o racismo brasileiro, quando desci no Aeroporto. ”

Zulmira bata
Há uns seis meses estudantes angolanos da USP, foram espancados pela polícia, quando um deles teve seu celular roubado e com ajuda dos amigos tentou recuperar dos ladrões. Na briga ocorrida chamaram a polícia, que chegando bateu em quem era mais escuro (no caso os estudantes angolanos).
Esses fatos não são locais, é uma questão mundial. Não só dos africanos da Diáspora causada pela escravização, mas hoje pela imigração. A África continua sendo espoliada e explorada, intervenções militares dos países ditos civilizados destruíram estados nacionais instalando o caos forçando a saída desses países. Se parte da Europa e o Estados Unidos são ricos é em função de uma política imperialista e exploradora de países ditos subdesenvolvidos.
Lutamos, tentamos nos organizar, coloquei hoje fotos que registrei uma manifestação de nossos companheiros em frente ao Palácio do Planalto em 2012. O caminho é longo...
Que suas memórias e as nossas formem uma união efetiva entre nossos povos em lados diferentes do Atlântico, mas irmãos em luta e coração. Grande abraço amiga, companheira de luta, minha irmã.

Hugo Ferreira Zambukaki

domingo, 21 de junho de 2015

Procedimento Padrão

 

Estava com pressa

Só tenho uma hora de almoço

Esquentei a marmita

Fui até carregar o bilhete único na lotérica

E entrei no supermercado

estava vazio

Fui até a seção de hortifrúti

Um homem atrás de mim

Escolhi as bananas, peguei as batatas

E podia sentir que ele me olhava

Fui para o outro corredor

Pegar açúcar

ouvi passos

Caminhei mais depressa

os passos apertaram

Fui pegar o pão

Sentia os olhos do mal

Fiquei de saco cheio

Virei e soltei:

“Qual é o problema?

Vai ficar me perseguindo?

Por todo o lugar?”

O segurança com cara de tacho:

“-Desculpas, senhora.

Procedimento padrão.

Fazendo a ronda. ”

Eu já muito irritada soltei:

“Contra preta?

Só tem eu os funcionários

que somos pretos.

Os brancos fazendo compras

não são importunados.

Mais respeito! ”

E mais uma

fui reclamar com o gerente...

 

Jô Muniz

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O dia em que me vi

 

Nunca disse uma palavra de amor

enquanto odiei o meu corpo

como dar graças ao Criador

odiando sua imagem e semelhança

dia queme vi

Como buscar a mão de um irmão

se o negro de minha alma e cor

brilhavam luzidio na sua pele

como espelho de minha negra imagem

 

Anjos e deuses eram brancos

belos, lindos e cultos

eu ser descaído mendigava

um olhar, um afago, um abraço

 

A mão que me tocasse

por mais branca que fosse

suja , imunda, desprezível se tornava

pois eu mesmo me odiava

 

Um dia rasgando meu corpo e alma

de tudo que eu sempre ouvira

surgiu o homem negro livre

da prisão onde existira

O reflexo, criado por vozes opressoras

em mil partes se quebrou

negro, burro, imundo, sem valor

ficaram cacos quebrados

 

O homem negro de punho levantado

olhou demoradamente seu irmão

não de pele mas de fé

e pela primeira vez, amou

 

Livro “ Luta pela Igualdade”

Hugo Ferreira Zambukaki

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Durante a Ditadura Militar quando éramos oposição

 

“- Sim, estive lá eu lutei!”
(Convocatória para o lançamento de fundação da FRENAPO 16/6/1980)
Hoje 9 de janeiro de 2015 completa 62 anos o irmão e camarada Benedito Cintra, vindo de movimentos de base da periferia nos anos de 1973 e 74 no Movimento Contra a Carestia. Elegeu-se vereador em 1976 com 23 anos pelo MDB partido de oposição à Ditadura. Na época o PC do B era um partido clandestino. Cintra participava do diretório do MDB, da Freguesia do Ó, eu no Diretório de Santa Efigênia, eu não participava de “partidos organizados” (como se falava na época) era da chamada esquerda independente. A eleição controlada pela Ditadura os prefeitos eram nomeados pelo Governador , dos candidatos à vereador apareciam pequenas fotos e um mínimo currículo. Votei na foto 3/4 do Cintra, sem conhecê-lo pessoalmente, mas por sua história de luta e militância.

Conselho Posse 2

Posse do Conselho de Desenvolvimento e Participação da  Comunidade Negra de São Paulo no governo Franco Montoro

Quando em 1980 Paulo Maluf era o então governador eleito indiretamente iniciou a proposta da mudança da Capital de São Paulo para o interior do estado, os representantes (deputados e vereadores de SP) da então chamada “comunidade negros” eleitos pelo MDB que fora extinto em 1979 com o fim do bipartidarismo, apoiaram Maluf e entraram para o PDS sigla que continuava a trajetória da ARENA, nós antigos militantes do MDB tentando se organizar nos vários partidos de oposição que se delineavam, formamos uma Frente pluripartidária de oposição dos militantes negros contra os vereadores e deputados adesistas de Paulo Maluf.
O único companheiro que tinha mandato na cidade de São Paulo em 1980 era o camarada Benedito Cintra, as reuniões que se iniciaram num escritório de advocacia da Rua Líbero Badaró 92, transformou-se num quilombo de resistência no Gabinete do então vereador Benedito Cintra do PMDB.
Com inúmeros companheiros, como o ex-deputado e prefeito cassado de Santos Esmeraldo Tarquinio, Oscarlino Marçal, Abdias do Nascimento vindo do Rio de Janeiro, professor Eduardo de Oliveira o vereador João Bosco da Silva de São José dos Campos, e tantos companheiros  que não consigo citar todos de memória, mas alguns não posso esquecer como Ronaldo Simões, Mário Assunção, Nivaldo Santana,  professor Hélio Santos, Milton Santos, Alberto Alves da Silva Filho (Betinho da Nenê) Antonio Carlos Arruda , os irmãos Celso e Wilson Pudente, Valdir e Jurandir Nogueira criamos a FRENAPO (Frente Negra para Ação Política de Oposição).
Viriamos a apoiar a candidatura de Franco Montoro em 1982 à Governador na primeira eleição direta, mas isso já é outra história…
Uma simples poesia chamava para a convocação no Plenário da Assembléia Legislativa.

FRENAPO

“Um dia quero cantar teu nome

com a força de outros nomes

simbólicos peso na minha vida

com a ação de luta e respeito

forjados nas bigornas diárias da vida

e quando perguntarem: -Conhece?

Apenas simplesmente direi:

- Sim, estive lá eu lutei!”

Hugo Ferreira 16/6/1980

Durante a Ditadura Militar quando éramos oposição

 

“- Sim, estive lá eu lutei!”
(Convocatória para o lançamento de fundação da FRENAPO 16/6/1980)
Hoje 9 de janeiro de 2015 completa 62 anos o irmão e camarada Benedito Cintra, vindo de movimentos de base da periferia nos anos de 1973 e 74 no Movimento Contra a Carestia. Elegeu-se vereador em 1976 com 20 anos pelo MDB partido de oposição à Ditadura. Na época o PC do B era um partido clandestino. Cintra participava do diretório do MDB, da Freguesia do Ó, eu no Diretório de Santa Efigênia, eu não participava de “partidos organizados” (como se falava na época) era da chamada esquerda independente. A eleição controlada pela Ditadura os prefeitos eram nomeados pelo Governador , dos candidatos à vereador apareciam pequenas fotos e um mínimo currículo. Votei na foto 3/4 do Cintra, sem conhecê-lo pessoalmente, mas por sua história de luta e militância.

Conselho Posse 2

Posse do Conselho de Desenvolvimento e Participação da  Comunidade Negra de São Paulo no governo Franco Montoro

Quando em 1980 Paulo Maluf era o então governador eleito indiretamente iniciou a proposta da mudança da Capital de São Paulo para o interior do estado, os representantes (deputados e vereadores de SP) da então chamada “comunidade negros” eleitos pelo MDB que fora extinto em 1979 com o fim do bipartidarismo, apoiaram Maluf e entraram para o PDS sigla que continuava a trajetória da ARENA, nós antigos militantes do MDB tentando se organizar nos vários partidos de oposição que se delineavam, formamos uma Frente pluripartidária de oposição dos militantes negros contra os vereadores e deputados adesistas de Paulo Maluf.
O único companheiro que tinha mandato na cidade de São Paulo em 1980 era o camarada Benedito Cintra, as reuniões que se iniciaram num escritório de advocacia da Rua Líbero Badaró 92, transformou-se num quilombo de resistência no Gabinete do então vereador Benedito Cintra do PMDB.
Com inúmeros companheiros, como o ex-deputado e prefeito cassado de Santos Esmeraldo Tarquinio, Oscarlino Marçal, Abdias do Nascimento vindo do Rio de Janeiro, professor Eduardo de Oliveira o vereador João Bosco da Silva de São José dos Campos, e tantos companheiros  que não consigo citar todos de memória, mas alguns não posso esquecer como Ronaldo Simões, Mário Assunção, Nivaldo Santana,  professor Hélio Santos, Milton Santos, Alberto Alves da Silva Filho (Betinho da Nenê) Antonio Carlos Arruda , os irmãos Celso e Wilson Pudente, Valdir e Jurandir Nogueira criamos a FRENAPO (Frente Negra para Ação Política de Oposição).
Viriamos a apoiar a candidatura de Franco Montoro em 1982 à Governador na primeira eleição direta, mas isso já é outra história…
Uma simples poesia chamava para a convocação no Plenário da Assembléia Legislativa.

FRENAPO

“Um dia quero cantar teu nome

com a força de outros nomes

simbólicos peso na minha vida

com a ação de luta e respeito

forjados nas bigornas diárias da vida

e quando perguntarem: -Conhece?

Apenas simplesmente direi:

- Sim, estive lá eu lutei!”

Hugo Ferreira 16/6/1980