terça-feira, 16 de julho de 2013

Stevie Wonder prega boicote à Flórida contra o veredito de absolvição

Stevie Wonder prega boicote à Flórida contra o veredito de absolvição do segurança que matou o jovem negro.

The 2013 BET Awards held at Nokia Theatre - Inside<br /><br />Featuring: Stevie Wonder<br />Where: Los Angeles, California, United States<br />When: 30 Jun 2013<br />Credit: FayesVision/WENN.com

Durante uma apresentação na cidade de Quebec, no Canadá, no domingo, o cantor vencedor do Grammy falou sobre a recente absolvição de George Zimmerman e anunciou que iria boicotar o estado.

Stevie Wonder reagiu ao julgamento de George Zimmerman, considerado inocente do assassinato de Trayvon Martin, de 17 anos, afirmando que não se apresentará no estado da Flórida enquanto a lei "Stand your ground" não for revogada. Essa lei permite o uso de força em auto-defesa, sem a obrigação de se tentar uma retirada antes.
"Eu decidi hoje que enquanto a lei 'Stand your ground" não for abolida na Flórida, eu não vou mais me apresentar lá", disse o cantor, durante um show na Cidade de Quebec, no último domingo. "Na verdade, não vou me apresentar me nenhum lugar do mundo que tenha uma lei semelhante."

Martin foi baleado numa noite de 2012 quando ia para a casa da namorada do pai. Ele estava desarmado e foi morto por Zimmerman, um voluntário no policiamento comunitário, que portava uma pistola e alegou ter suspeitado do rapaz, que usava um casaco com capuz. O adolescente o confrontou ao perceber que estava sendo seguido, e na briga que se seguiu, foi morto. Zimmerman - filho de um americano e uma peruana - foi preso 44 dias após o assassinato e alegou legítima defesa. A corte não permitiu que o tema fosse tratado como caso de racismo, o que estimulou a ira de ativistas negros.
Após o anúncio da absolvição de Zimmerman, milhares de manifestantes de todo o país protestaram contra a decisão do júri que considerou legítima defesa a ação do ex-vigia, que abriu fogo contra o adolescente negro desarmado.

No início de sua sobre o anúncio de três minutos, capturado por um fã no concerto no YouTube, Wonder pediu a seus fãs para se juntar a ele no boicote.

 

No show em Quebec, Stevie Wonder pediu que o público se junte a ele no boicote.
"A verdade é que, para aqueles que perderam a batalha pela justiça, em qualquer lugar do mundo, nós não podemos trazê-los de volta. Mas podemos fazer nossas vozes serem ouvidas. E podemos votar em nossos países mundo afora por mudança e igualdade para todos. Isso é o que podemos fazer."
Wonder não está sozinho em seu protesto. Outros artistas americanos como Nick Minaj, Beyonce, FloRida e Wyclef Jean prestaram homenagem a Martin e criticaram o veredito.

Wonder não é a primeira celebridade a falar da absolvição do pós-veredicto, outros têm artistas tem se preocupado com a absolvição nas redes sociais,mas parece ser o primeiro artista a participar ativamente.

Randee Dawn

Fonte:  NBC News

Absolvição de assassino revolta Comunidade Negra Americana

Norte-americanos protestam contra absolvição de George Zimmerman

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Norte-americanos protestam contra absolvição de George Zimmerman (Fibonacci Blue/Flickr/Creative Commons)

Várias cidades norte-americanas foram palco, na noite de sábado (13), de manifestações de pessoas revoltadas com a absolvição de George Zimmerman pela morte de um adolescente negro. Foram registrados episódios esporádicos de violência.

Nova Iorque, São Francisco, Chicago, Washington, Atlanta e Filadélfia foram algumas das cidades onde a população foi para as ruas contestar a decisão tomada no final da tarde de sábado por um tribunal de Sanford, na Flórida, que optou por absolver Zimmerman. Ele matou a tiro um rapaz de 17 anos que estava desarmado.

A morte de Martin ocorreu em uma noite de fevereiro do ano passado, quando Zimmerman desempenhava funções de vigia do seu bairro.

Nas últimas semanas, o julgamento ganhou destaque na imprensa e, no sábado, o veredicto chocou a população, temendo-se uma onda de violência.

Jesse Jackson, um famoso ativista, apelou para todos manterem a calma, por meio do Twitter, onde escreveu: "Evitar a violência, que levará a mais tragédias. Encontre uma maneira de autoconstrução e não de desconstrução neste momento de desespero."

Os pais de Martin também têm participado demanifestações antiviolência, citando ícones dos direitos civis como Martin Luther King ou lendo passagens da Bíblia.

Em São Francisco, centenas de manifestantes marcharam pacificamente, sendo sempre vigiados por um forte esquema policial. Muitos carregavam cartazes com a frase O povo diz: Culpado.

Um grupo de manifestantes que marchava em Oakland, do outro lado da baía de San Francisco, pintou carros com spray e quebrou janelas, segundo imagens divulgadas pela Oakland Tribune.

Em Chicago, aos gritos de Não há justiça, não há paz! Nenhum policial racista!, uma multidão de ativistas promoveu uma ruidosa manifestação no centro da cidade. A Times Square, em Nova Iorque, também foi palco de uma concentração.

Cerca de 200 manifestantes concentraram-se em um parque do histórico bairro negro de Los Angeles e, em Washington, dezenas de pessoas, a maioria jovens afro-americanos, marcharam.

Centenas de pessoas reuniram-se durante todo o sábado em frente ao tribunal em Sanford, Flórida.

Agência Lusa14.07.2013 - 11h53 | Atualizado em 15.07.2013 - 18h18

segunda-feira, 15 de julho de 2013

UNEGRO 25 ANOS DE LUTA

 

Participei no dia 14 de julho de 2013, da comemoração dos 25 anos da UNEGRO na UESP, com muita alegria muita emoção. Com a presença do ex-vereador e ex-deputado Nivaldo Santana, lembrávamos-nos de 1978, quando no gabinete do então Vereador Benedito Cintra, então no PMDB (o PC do B estava ainda na ilegalidade) um outro importante ponto de apoio foi o então vereador de São José dos Campos João Bosco da Silva, formávamos um quilombo com companheiros de todos os partidos contra a Ditadura. A FRENAPO sigla de Frente Negra de Oposição surgia como uma manifestação contra a Ditadura Militar. Na época vereadores em São Paulo e deputados negros eleitos, mudaram de partido para apoiar Paulo Maluf candidato à Governador de São Paulo. Elegemos Franco Montoro em 1 982, e foi uma pá de cal na Ditadura.

Velhas histórias “das antigas” e na continuidade e concretização dos 25 da UNEGRO vejo a continuidade dos sonhos de jovens negros que fomos. Minha homenagem à UNEGRO e à suas realizações.

 

O discurso do presidente Nacional da UNEGRO Edson França:

“Hoje, 14 de julho, a UNEGRO completou 25 anos ininterruptos de luta política contra o racismo. Temos muito a comemorar porque somos artífices das vitórias do movimento negro brasileiro e porque obra que não presta tem grande possibilidade de não sobreviver 25 anos, ou seja, a matéria prima que gerou a UNEGRO é de boa qualidade.
Nossa matéria prima são compreensões de como se estrutura a dominação:
Convicção que o racismo é um fenômeno que deve ser superado, pois não beneficia a humanidade, ao contrário, aprisiona, gera conflitos, divide e vitimiza.
Consciência que a luta de classe e a luta contra a dominação de gênero compõe o triple da luta emancipatória da população negra e do povo brasileiro.
Determinação em não se adaptar ao racismo, ir à luta para sua superação.
Assim a UNEGRO tem enfrentado nesse quarto de século as vicissitudes da luta contra o racismo. Apesar do paradoxo da nossa existência seja a luta para nossa inexistência, hoje reiteramos nosso compromisso com a UNEGRO e fizemos votos de sucesso e longa vida para Entidade, nela depositamos nossas ideologias, trabalhos e sonhos.
Parabéns a UNEGRO!
Parabéns aos unegrinos e unegrinas!
Parabéns ao movimento negro brasileiro!”

domingo, 14 de julho de 2013

Dois Irmãos – RS- lição contra o preconceito

Eleição de Tânia Terezinha da Silva quebra preconceitos
Dois Irmãos será único município do RS a ser comandando por mulher negra

Tânia Terezinha da Silva comandará Dois Irmãos. Clique e veja mais fotos Crédito: Vinicius Roratto

Tânia Terezinha da Silva comandará Dois Irmãos. Clique e veja mais fotos
Crédito: Vinicius Roratto

O município de Dois Irmãos, no Vale do Sinos, 53 anos depois da sua emancipação, entra para a história política do Rio Grande do Sul ao eleger pela primeira vez uma prefeita. A administração da cidade ficará com a técnica de enfermagem Tânia Terezinha da Silva, 49 anos, no mínimo, pelos próximos quatro anos (2013 a 2016). Filiada ao PMDB desde 1995, ela recebeu 9.450 votos dos eleitores no dia 7 de outubro.

O que chama atenção na eleição desta mulher negra e com dreadlocks — forma de se manter os cabelos que se tornou mundialmente famosa com o movimento rastafári —, é que Tânia está em um município onde predominam descendentes de alemães. A escolha coloca a futura prefeita ao lado de políticos negros como Alceu Collares — prefeito de Porto Alegre de 1986 a 1989, governador de 1991 a 1995 e deputado federal por cinco mandatos —, e do ex-deputado estadual Carlos Santos (falecido em 1989), que assumiu por duas vezes interinamente o governo gaúcho em 1967.
Tânia teve uma grande conquista porque, das 35 mulheres eleitas no Rio Grande do Sul, é a única negra, de acordo com levantamento da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs). O Estado tem 497 municípios. Com forte militância na área da saúde e da assistência social, ela conquistou a confiança da comunidade de Dois Irmãos, principalmente na zona rural do município, onde trabalhou nos postos dos bairros São João e Travessão e na emergência que funciona 24 horas.
Além disso, foi eleita três vezes vereadora do município. Em 2008, entrou para a história de Dois Irmãos como a mais votada da cidade, com 2.055 votos. A marca até hoje não foi superada por nenhum candidato. Em 2010, uma nova alegria: foi a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal. “Tanto no Legislativo quanto nas unidades de saúde, minha proposta sempre foi resolver o problema das pessoas. Atendia todos e buscava uma solução para o pedido de cada morador da cidade”, comenta.
Para Tânia, é fundamental dar importância ao que as pessoas estão falando e, segundo ela, esse foi o diferencial em 2012. Ela acredita que três paradigmas foram quebrados: o fato de ser a primeira mulher a concorrer à prefeitura, ser negra e divorciada. “A população queria algo novo, forte e diferente. A competência e o trabalho em favor da população de Dois Irmãos transcendeu a cor da pele.”
Tânia recorda que começou a sentir que a vitória estava próxima quando faltavam 15 dias para o pleito. “Os moradores começaram a ligar para o comitê atrás de adesivos e placas para colocar nas suas casas”, lembra.
Na quinta-feira, Tânia reassumiu suas funções no posto de saúde do bairro Travessão. Ela tem dividido seu tempo com os filhos que moram com ela em Dois Irmãos. Pablo e Hohana cursam Biomedicina e Enfermagem, respectivamente, na Feevale. Além disso, trata com o vice-prefeito Jerri Adriani Meneghetti (PP) e assessores detalhes para a posse no dia 1° de janeiro de 2013.
Popularidade de Tânia impressiona
Natural de Novo Hamburgo, Tânia Terezinha da Silva desfruta de uma popularidade impressionante em Dois Irmãos, onde reside desde 1994. Durante um passeio pela Praça do Imigrante, um dos seus locais preferidos no município, onde residem 27 mil habitantes, a futura prefeita agradeceu aos moradores pela votação. “O cabelo é um sucesso, principalmente entre as crianças, que adoram tocar”, conta.
Tanto entre os empresários quanto entre sindicalistas e a população, a expectativa é que a prefeita tenha um olhar igual para todos. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Dois Irmãos, Ademir Berlis, ressalta que Tânia já provou que sabe trabalhar e dar atenção à população, como já ocorreu na área da saúde. “Tomara que ela leve esse conceito para a administração pública, porque estamos cansados de gestores seguros demais”, observa.
Segundo ele, a futura prefeita é uma pessoa humilde e de olhar diferenciado. Segundo Berlis, o povo de origem alemã é duro e conservador, muitas vezes, mas é hospitaleiro. “Teremos o governo de uma mulher competente, que alia seriedade e trabalho”, destaca Berlis.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Dois Irmãos e Morro Reuter, Pedro Joãozinho Becker, diz que a entidade sempre defendeu uma maior participação da mulher na administração pública. “Demorou mais de cinco décadas para chegarmos a esse momento de uma mulher no comando da cidade. Estamos torcendo para a gestão dela ser um sucesso”, confidencia.
Passeando na Praça do Imigrante, o aposentado Irineu Eich acredita que Tânia Terezinha terá uma atenção especial e mais humana “com pretos, brancos, pobres e ricos”.
Nos dias de folga, a prefeita eleita gosta de se encontrar com amigos para a tradicional roda de chimarrão e um bate-papo. Igualmente não despreza uma boa música. É fã de Gilberto Gil, Alcione, Maria Bethânia e Gal Costa.
‘Respeita e sabe ouvir’

Na Praça do Imigrante, em Dois Irmãos, um aposentado com um forte sotaque alemão observava com atenção os cumprimentos dos eleitores à futura prefeita e fez o seguinte comentário: “O povo alemão é duro, exigente, mas sabe reconhecer uma Schwarze Frau (mulher negra) que respeita as pessoas e sabe ouvir, o que é o caso da prefeita Tânia Terezinha”.
Fonte: Cláudio Isaías / Correio do Povo

http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=472500

sábado, 13 de julho de 2013

A primeira reitora negra do Brasil

 

Ela é negra do Brasil

Nilma Lino Gomes assume a Unilab como a primeira reitora negra do País. Entre tantos desafios, está ampliar as relações internacionais com os países de língua de expressão portuguesa

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FOTO SARA MAIA

A professora mineira Nilma Lino Gomes tomou um susto quando foi convidada para ser reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no início deste ano. A proposta veio do colega Paulo Speller, reitor-fundador da primeira universidade internacionalizada do Brasil, fincada no Maciço de Baturité, em Redenção, a 40 quilômetros de Fortaleza. Passada a surpresa, veio a percepção do contexto. Seria a primeira mulher negra no comando de uma universidade brasileira.

“Senti-me honrada e, depois do choque, compreendi que o convite tinha a ver com minha trajetória”, afirmou a reitora Nilma Lino ao O POVO em meados de abril, 20 dias após desembarcar em Redenção. Com um sorriso largo e palavras sob medida, à moda de Minas, a doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutora em Sociologia pela Universidade de Coimbra aborda as questões em torno do racismo no Brasil, tema que elegeu tanto na academia como pesquisadora, quanto como cidadã. “Pedagogicamente, atuo assim; politicamente, atuo assim. Quando o convite chegou, entendi que tinha a ver com meu perfil. Sou uma mulher negra que atua nas questões raciais”, analisa a reitora sobre o porquê de ter decidido deixar Minas Gerais para morar numa cidade que só conhecia de ouvir falar, e ser reitora de uma universidade que havia de concluir a implantação.

Ao longo de quase duas horas, Nilma Lino conversa sobre o trabalho intenso de conhecer o lugar, a universidade e as pessoas, fala sobre as políticas afirmativas em curso no Brasil e diz que o resultado dessa política pelo menos jogou por terra o discurso mítico em torno da democracia racial no País. A seguir, os principais pontos da entrevista. (colaborou Aflaudisio Dantas)

O POVO - A senhora já conhecia Redenção antes de vir como reitora para a Unilab?

Nilma Lino - Não. Eu sabia da universidade e sabia de Redenção pelo meu colega que foi o primeiro reitor Paulo Speller. Fomos colegas no Conselho Nacional de Educação. Quando cheguei ao Conselho, Paulo estava terminando a gestão dele na Câmara de Educação Superior e sempre falava da universidade e de Redenção. Mas não tinha vindo aqui.

OP - Para a senhora, qual o maior desafio para o processo de consolidação da Unilab?

Nilma - Não sei se teria o maior. Acho que o primeiro desafio é dar continuidade ao trabalho de instalação, de início da universidade, tão nova. Acho que meu grande desafio é dar continuidade e consolidar esse trabalho já iniciado pela gestão do professor Paulo Speller. Outro desafio é nesse processo é ir ampliando e aprofundando cada vez mais esse caráter internacional dessa universidade com os países de língua de expressão portuguesa, em especial os africanos, e com possibilidade de expansão. Nas mais diversas áreas da universidade: pesquisa, ensino, extensão e na própria relação dos professores com a pesquisa. Essa universidade nasce diferente de outras, já nasce com esse caráter de uma determinada forma de internacionalização, que está dentro dessa ideia da Cooperação Sul-Sul, a Cooperação Solidária Sul-Sul e isso é muito novo no Brasil.

OP - Qual o estágio de implantação dos campi da Unilab fora de Redenção?

Nilma - Em São Francisco do Conde, temos um prédio que foi cedido pela Prefeitura do município, já quase que em condições de começar a funcionar. Já temos lá funcionando a Educação a Distância na forma de especialização. Nosso grande desafio agora é implementar cursos presenciais, construir o corpo administrativo e o corpo docente dentro desse campus. Aqui, em Palmares (Acarape), está em processo de construção.

OP - Quando a senhora olha para sua universidade hoje, como analisa o trabalho em torno dessa integração de países, tão diversos, e cuja matriz está assentada na língua portuguesa?

Nilma - Eu me reporto ao dia da posse do vice-reitor, quando estive pela primeira vez em Redenção e na Unilab. Estávamos no anfiteatro, então olhei e vi o público da universidade. Ali estavam professores, pessoas da comunidade, estudantes, técnicos administrativos e a sensação é de encantamento de ver uma diversidade tão grande no mesmo espaço, imbuída de um projeto muito inovador. Quando penso essa diversidade – que é étnica, racial e cultural – estar presente na Unilab me encanta, me desafia. Acho que aqui, temos possibilidades de construirmos relações que podem ser profícuas entre os diferentes e as diferenças. Ao mesmo tempo, com pontos muito comuns. E compreender a complexidade que é a língua de expressão portuguesa, porque ela está localizada historicamente em contextos muito diferentes. E aí, temos algo que nos aproxima que é comum, mas ao mesmo tempo temos particularidades muito intensas.

OP - Como a senhora recebeu o convite para ser reitora da Unilab? O que a levou a aceitá-lo?

Nilma - Fiquei surpresa e honrada. Depois do choque, né? (risos). Compreendi também que isso tem a ver com minha trajetória. Sou professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Junto com uma equipe de colegas, construí um programa de ensino, pesquisa e extensão chamado Ações Afirmativas da UFMG. Conseguimos ampliar mais a pesquisa sobre temática racial e estávamos ampliando para as temáticas africanas. Sou uma militante em prol da superação do racismo. Pedagógica e politicamente, atuo assim. Sou uma mulher negra que atua nas questões raciais.

OP - O que a Unilab representa no contexto da questão racial e da afrodescendência no Brasil hoje?

Nilma - Sabemos que, muitas vezes, as práticas de racismo que acontecem na sociedade brasileira têm a ver com uma representação muito negativa do continente africano. E uma total ignorância sobre o continente africano. Da sua história, riqueza, luta dos seus povos, orientações políticas mais recentes, e escolhas dos seus governantes. Nós temos hoje um desconhecimento e precisamos conhecer mais, porque é uma forma de superar preconceitos. Eu ignoro sobre, aí preconcebo uma ideia e passo a generalizá-la para todo mundo. O papel da universidade nesse caso, a própria existência dela, a produção do conhecimento que pode ser desenvolvida aqui na universidade é um outro fator importante. Penso nas relações que ela vai construir com a comunidade local, com o próprio Brasil, com o Ceará.

OP - Já é possível mensurar os efeitos das políticas afirmativas sobre as populações negras no Brasil?

Nilma - Elas são muito recentes. Não sei se dá para mensurar, mas acho que dá para fazer algumas reflexões sobre esse processo. Você tem hoje uma discussão muito intensa. Estamos completando dez anos desde que a alteração da Lei de Diretrizes e Bases foi sancionada pela Lei 10.639 de 2003, que é o ensino de história e cultura africana, nas escolas de educação básica. É claro que é uma implementação irregular se formos pensar assim, porque o ideal seria que, depois de dez anos, pudéssemos falar assim: “A educação básica avançou de norte a sul nas escolas públicas e privadas em relação a essa temática”. Não podemos dizer que avançamos na totalidade. Por isso, digo que é uma implementação que ainda acontece de forma irregular em algumas redes de ensino e regiões do Brasil. Uma coisa é certa: desencadeou uma discussão, produção de pesquisa, de material didático e literário. Trouxe questionamentos para formação de professores. Na educação superior, temos uma lei de cotas que hoje vale para as instituições federais de ensino.

OP - A senhora considera que a negação das questões raciais pela sociedade brasileira impediu que as decisões afirmativas fossem tomadas há mais tempo?

Nilma - Tem sim um processo de negação do racismo na nossa sociedade. Vivemos o que toda literatura que trabalha com o tema aponta: um discurso de que todos nós somos muito democráticos. De que temos a democracia racial no Brasil. E essa representação mítica traz uma negação das reais condições da população negra na sociedade brasileira. Na discussão da temática racial, a sociedade brasileira sempre foi acompanhada de demandas históricas do movimento negro. Esse movimento reeduca a si mesmo e reeduca a sociedade no debate da questão étnico-racial. Acho que aí você vai tendo outros legados da luta antirracista. Você vai ver que existem outros movimentos sociais como o movimento de mulheres, movimentos LGBT, movimentos sociais do campo e que começam a introduzir a pauta da luta antirracista. Por isso, falo do papel de reeducar a si mesmo e a sociedade.

OP - Quando a senhora se descobriu negra?

Nilma - Acho que eu sempre soube (risos). Por que sou de uma família do interior de Minas Gerais. Uma família negra que sempre se viu negra. Fui educada para ter orgulho de quem eu sou. Meu pai era um líder comunitário. Já falecido. Tenho muita lembrança do meu pai lutando por melhoria do bairro, por água, ônibus. Um homem negro muito digno. Meu pai tinha uma indignação com qualquer forma de injustiça. Minha mãe, viva até hoje, foi bordadeira, uma mulher muito sábia. Eu venho de uma família em que nós sempre nos víamos negros, convivemos com parte da família que é negra. Sempre fui criada como mulher negra, uma menina negra. O que eu descobri fora desse aconchego familiar foi o racismo! Foi traumático, porque foi na escola, na primeira série. Até já escrevi sobre isso. Tenho um livro sobre a questão de corpo e cabelo como símbolos da identidade negra, que foi minha tese de doutorado. Foi justamente com o contato com a minha estética. Uma colega me xingou de “cabelo de bombril”. Foi o primeiro xingamento racista que ouvi. É racista, mesmo que seja na boca de uma criança, por que ela aprendeu isso em sociedade, a ver o outro dessa forma. Ela reproduziu isso. Lembro que foi o primeiro choque que tive, porque nunca tinha ouvido nenhuma referência negativa ao meu cabelo! Cheguei em casa e levei isso pra minha família, que reage, vai à escola. Comecei a perceber que meus outros colegas negros recebiam xingamentos, esses e outros. Fui compreendendo que a vida não é só a minha família (risos). Fui entendendo que eu tinha que aprender a me defender também. Isso é muito duro. Sobretudo na infância, porque é onde aprendizados começam a acontecer. Quando adultos, aprendemos a nos defender, uns mais, outros menos. Mas a criança está em processo de formação. Daí, penso sempre na importância da escola.

OP - Suas experiências de vida influenciaram de forma definitiva suas preocupações acadêmicas. Como isso se deu?

Nilma - Pela minha vivência mesmo. Minha família negra. Depois, por experiências que comecei a viver como professora da educação básica. Sempre fui professora. Só sei ser professora (risos). Logo que me formei, comecei a trabalhar. Fiz concurso para a rede pública. Desde então, sou professora da rede pública. Tive um pequeno período em que trabalhei no público e no privado. E comecei nesse momento a perceber diferenciações. Não só em relação a mim no tratamento. Era uma escola privada de médio porte. Tive que reeducar os alunos a ter uma professora negra atuando nessas turmas de ensino fundamental. E também atuava numa escola pública onde uma grande maioria dos meus alunos eram negros. Eu era diferente num espaço e era igual em outro. Isso tudo mexeu muito comigo. Conversando com um professor da pós-graduação, eu colocava essas questões para ele, colocava também para uma colega. E as pessoas falavam que esse era um tema que precisava de mais investigação. Era no final dos anos 80, começo dos anos 90, nós não tínhamos a produção que temos hoje sobre relações raciais na educação e em outras áreas. Então, me senti instigada. Era um momento que tínhamos poucos pesquisadores negros que falavam sobre as questões raciais. Como educadora e como mulher negra, falei: “Acho que tenho que uma responsabilidade acadêmica e política”. E comecei a pesquisar sobre professoras negras. Foi meu primeiro trabalho. Fiz um trabalho com a trajetória de mulheres negras professoras e a relação delas com o debate racial e com as crianças, como isso acontecia. Não parei mais.

OP - Como lidar com o racismo entre a população negra?

Nilma - Sempre que me perguntam isso, chamo atenção para uma questão: o racismo é um fenômeno que prejudica todos nós: negros, brancos, indígenas. E para compreender como uma pessoa que é negra pode desenvolver um preconceito contra si mesmo e contra o seu grupo, é o maior exemplo da perversidade do racismo. Como esse fenômeno consegue ser tão estrutural na nossa sociedade e, ao ser estrutural, ele se torna estruturante das nossas relações. E isso impregna na nossa própria subjetividade, que é possível que, quando se está num lugar com referências muito negativas em relação ao seu próprio grupo étnico-racial, é possível que essa pessoa também desenvolva esse mesmo sentido. Por isso que as políticas afirmativas e a afirmação das identidades são importantes. Porque você pode construir um outro ambiente social, outras representações positivas que vão disputar com as representações negativas que estão em curso. Subjetividades inconformistas e rebeldes são aquelas que se indignam com as injustiças, com preconceitos. Acho que vale para a população negra e para a população branca. Mais do que prestar atenção no fato de uma pessoa negra que discrimina uma outra pessoa negra, é entender qual o fenômeno perverso na nossa estrutura que educa as pessoas desse jeito. E mais: se elas são educadas assim, podem ser reeducadas de outra forma, e a ver seu próprio grupo étnico-racial de uma outra forma.

Fonte Jornal O Povo

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Zoo humano com atores em vitrinas

Inspirado em exposições humanas que aconteciam na Europa no final do século 19, quando negros, índios e outras minorias eram exibidos como animais em um jardim zoológico.
A diretora alemã Karin Beier e em cartaz em São Paulo no Sesc Pompéia, toma como base colônias de descendentes de alemães no Brasil para forçar o debate sobre tradições, segregação e integração social.
Peça Teatral

CULTURA
Peça teatral questiona preservação de tradições por colônias alemãs
"BRASILIEN.13 caixas", da diretora alemã Karin Beier e em cartaz em São Paulo no Sesc Pompéia, toma como base colônias de descendentes de alemães no Brasil para forçar o debate sobre tradições, segregação e integração social.
Foi lendo sobre a história de Hamburgo, onde dirige a companhia de teatro Deutsches Schauspielhaus Hamburg, que a diretora Karin Beier entrou em contato pela primeira vez com a questão da imigração alemã no Brasil. Na Alemanha, integração de estrangeiros é ponto constante de debate – e analisar o comportamento dos imigrantes alemães no exterior é uma forma de jogar luz sobre o tema.
Beier foi então a Joinville, onde entrevistou diversos descendentes de alemães. Nas entrevistas, as pessoas contaram a história de suas vidas e de seus antepassados. O material serviu de base para o projeto teatral BRASILIEN.13 caixas, em cartaz em São Paulo e que aborda – sempre levantando questionamentos – temas como integração e segregação.
"Queria ver como os alemães se envolveram em outras sociedades", disse Beier à DW Brasil. "O que mais me impressionou é como [parte dessa] comunidade é fechada, mas de uma maneira negativa. Eles estão na sexta geração e não se misturam. Eles mantêm a cultura e a tradição alemã de uma maneira muito limitada. Esse é exatamente o comportamento oposto que nós, alemães, esperamos das pessoas que deixaram a Alemanha."
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Elenco de "BRASILIEN.13 caixas" conta com atores brasileiros e alemães
Em meados do século 19, um grupo privado chamado Hamburger Kolonisations-Verein (associação de colonização de Hamburgo) tinha como objetivo ampliar seus negócios levando migrantes ao Brasil em navios que viajavam vazios em busca de matérias-primas.
O movimento migratório deu origem à colônia alemã Dona Francisca, atual Joinville, em Santa Catarina. Hoje, muitos dos descendentes dos fundadores da colônia ainda vivem na região e tentam manter vivas as tradições e crenças de seus antepassados – de forma questionável, na opinião da diretora.
"Chega um ponto em que temos que questionar o conceito de identidade nacional", diz Beier. "O que é interessante é que, em pequenos comentários, e não nas histórias em si, você percebe nuances de arrogância no comportamento dessas pessoas, quase como um sentimento de superioridade."
O espetáculo é construído como uma crítica à preservação – mesmo depois de seis gerações – de tradições que não pertencem mais aos dias de hoje. "Acredito que manter tradições de maneira tão forte em um país estrangeiro é uma atitude tipicamente alemã", opina.
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No placo, atores se apresentam como peças de museu
"Conversei com muitos idosos em Joinville e tive a impressão de que eles eram como peças de museu e não pessoas que vivem hoje, no mundo real. Eles conservam algo que não pertence aos dias de hoje. Assim nasceu a ideia de criar uma 'exposição humana' no palco. Essas pessoas não estão apenas em uma vitrine, mas intocáveis em uma espécie de cápsula", explica.
O palco como museu
O espetáculo é dividido em duas partes. A primeira funciona como um museu. A diretora buscou inspiração nas exposições humanas que aconteciam na Europa no final do século 19, quando negros, índios e outras minorias eram exibidos como animais em um jardim zoológico.
O público pode andar entre as caixas e observar os atores. Eles recebem um fone de ouvido e podem escolher o número da caixa que querem ouvir. Os textos foram construídos com fragmentos das entrevistas feitas em Joinville.
"Em um primeiro momento, os atores estão apenas sentados, depois começam a bater no vidro para chamar a atenção dos espectadores. O público decide se quer ouvir diversas histórias de uma mesma pessoa ou passear entre diferentes histórias. Ninguém consegue ouvir tudo, pois as histórias não se repetem", conta.
Em certo momento, os "guardas" do museu pedem que as pessoas tomem seus lugares, dando início à segunda parte do espetáculo. Entre as caixas, uma atriz sobe ao palco e começa o monólogo escrito especialmente para a ocasião pela escritora austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2004.
A diretora enviou e-mails para a autora sobre as experiências que teve em Joinville e perguntou se ela estaria interessa em escrever um epílogo para o espetáculo.
"A segunda parte é muito importante porque o texto de Jelinek fala sobre a arrogância alemã. Ela está sempre muito interessada em criticar o comportamento alemão. Em alguns pontos, você percebe que o texto foi baseado nesses relatos, mas ela escreve de uma maneira muito livre. O texto é excelente", diz a diretora.
Durante o texto de Jelinek, em um dos momentos finais do espetáculo, crianças de diversas etnias entram no palco. Elas estão curiosas para ver as pessoas dentro das caixas. "Nesse momento, os alemães começam a cobrir os vidros com fotos tipicamente alemãs, fechando-se ainda mais em seu pequeno ninho", completa Beier.
"BRASILIEN.13 caixas" está em cartaz no Sesc Pompeia em São Paulo até 7 de julho. O espetáculo tem previsão de estreia em Hamburgo em janeiro de 2014.
Fontes Diário Digital
DW




























Campanha na África do Sul homenagem a Mandela

África do Sul lança campanha nacional em homenagem a Mandela
No próximo dia 18, data do aniversário do ex-presidente, os sul-africanos devem dedicar "67 minutos de seu tempo" a Nelson Mandela
mandela_bandeira Homenagem
Uma oração ao ex-presidente foi feita em reunião nesta terça-feira no Consgresso Nacional Africano (Foto: AP Photo/Schalk van Zuydam)
Hospitalizado há quase um mês e prestes a completar 95 anos, o ex-presidente da África da Sul e Prêmio Nobel da Paz de 1993,Nelson Mandela, receberá uma série de homenagens no país. O governo lançou uma campanha nacional para que os sul-africanos se inspirem em Mandela e atuem em favor de mudanças positivas. A ideia é que no próximo dia 18, data do aniversário do ex-presidente, os sul-africanos dediquem “67 minutos de seu tempo” a ele, como diz texto da agência pública sul-africana.
Em 2010, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 18 de julho como Dia Internacional de Nelson Mandela. A data é dedicada aos esforços feitos por ele em defesa dos direitos humanos e da resolução de conflitos e reconciliação. Mandela foi o principal responsável pelo fim do apartheid (regime de segregação racial) no país.
O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, disse que o lema das homenagens é “Aja e inspire a mudança. Faça a cada dia um Dia Mandela”. "Madiba [apelido de Mandela que significa O Conciliador] deixa uma marca indelével na nossa sociedade, tendo supervisionado a transição do apartheid para uma sociedade construída sobre os pilares da democracia e da liberdade”, disse Zuma.
O porta-voz do governo, Phumla Williams, ressaltou que Mandela defendeu, ao longo de sua vida, os compromissos com a Justiça, a igualdade e a África do Sul não racial. "Somos lembrados que temos a responsabilidade de promover a liberdade e defender a nossa democracia para honrar os compromissos dele com esses ideais", disse.
Mandela está internado em Pretória desde o último dia 8, em decorrência de uma infecção pulmonar. Nos últimos dias, o estado de saúde dele se manteve estável e crítico, sem alterações, segundo o governo sul-africano. 
Fonte: AGÊNCIA BRASIL