quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Um exemplo para vencer o racismo e preconceito

"DOIS IRMÃOS DEU EXEMPLO AO BRASIL"

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Conheça a inspiradora história de Tânia Terezinha da Silva, a primeira prefeita negra de uma cidade gaúcha colonizada por alemães; "no Brasil, o racismo existe, mas é velado", afirma
13 DE FEVEREIRO DE 2013 ÀS 09:25
Samir Oliveira, do Sul 21
Tânia Terezinha da Silva desembarcou na cidade de Dois Irmãos pela primeira vez no início da década de 1990. Nascida e criada na Vila Rosa, em Novo Hamburgo, ela resolveu tentar a sorte em um concurso público para técnico em enfermagem – profissão que aprendeu durante o Ensino Médio, na escola Santa Catarina. "Eu não sabia que, a partir daquele momento, minha vida iria mudar", conta.
Ela conseguiu, na época, ficar em primeiro lugar no concurso. Durante os dois primeiros anos, dividia seus dias no percurso entre Dois Irmãos e Novo Hamburgo, onde o marido e os filhos moravam. "Mas aí comecei a me apaixonar pela cidade, que é simples e tranquila. Os pátios das casas não tinham grades, eram abertos. Pensei: é nesse lugar que quero criar meus filhos", recorda.
Quando decidiu se mudar para a cidade de 27 mil habitantes e forte colonização germânica, Tânia sequer possuía filiação partidária e jamais poderia imaginar que um dia fosse ser eleita a primeira prefeita mulher e negra do município.
No início, logo que chegou na cidade, começou a trabalhar em uma unidade móvel de saúde. "Percorríamos todos os bairros e escolas, então pude conviver com muita gente. Íamos inclusive para localidades onde as famílias falam quase que exclusivamente alemão", comenta.
Em 1995, veio o convite para que se filiasse ao PMDB e, em 1996, Tânia conseguiu se eleger a quarta vereadora mais votada da cidade. Cargo que ela considera "ingrato", já que o parlamentar não pode formular leis que impactem no orçamento municipal.
Em 2000, ao não conseguir a reeleição, ela assumiu a coordenação do posto 24 horas que, na sua definição, é uma espécie de HPS de Dois Irmãos. "Todas as urgências do município se concentram lá".
Foi no posto que Tânia continuou colocando em prática a premissa que adota e que a levou a optar pela área da saúde. "Sempre trabalhei no atendimento à pessoa como um todo. Quando vamos vacinar uma criança, não podemos olhar somente a carteirinha e o braço. É preciso olhar o entorno. Como está essa criança e sua família?", explica.
Ela estava gostando tanto do trabalho que se recusou a participar das eleições de 2004, apesar dos apelos do partido para que concorresse. Em 2008, tentou manter a mesma postura, mas acabou sendo persuadida, já que o PMDB precisava cumprir a cota de 30% de mulheres na nominata para a Câmara Municipal.
Quando abriram as urnas, a surpresa: 2.055 votos, marca ainda imbatível na cidade. Em 2012, o vereador mais votado obteve 1.471 votos. Neste mandato, ela conseguiu a unanimidade dos colegas para ser a presidente da Câmara.
A campanha à prefeitura
Após o desempenho eleitoral de 2008, o nome de Tânia Terezinha da Silva apareceu em primeiro lugar em todas as pesquisas realizadas pelos partidos de sua coalizão (PMDB-PP-PTB) para a disputa pela prefeitura de Dois Irmãos. Foi assim que ela acabou sendo escolhida candidata, numa chapa ao lado do atual vice-prefeito Jerri Adriani Meneghetti (PP), a quem ela chama de "menino".
"Os partidos tiveram muita coragem ao acreditar no meu nome e no do Jerri. Ele é um jovem de 33 anos. Eu o chamo de menino. Não que eu seja muito velha", brinca a prefeita, que aparenta ter menos que os 49 anos de vida que possui.
Tânia garante que campanha foi feita de porta em porta, sem grandes aparatos. "Nos grandes municípios, existe muito marketing político. Nas cidades pequenas, a campanha é no corpo a corpo. As pessoas querem a visita do candidato", observa.
A agenda iniciava às 7h da manhã, na porta das fábricas. Às 8h30, Tânia iniciava a visita nas casas da população. O horário não foi escolhido por acaso. "É nesse horário que acaba o programa da Ana Maria Braga. As pessoas gostam de assistir, não dá pra incomodar", entende. O mesmo ritual era repetido à tarde, quando as visitas começavam somente depois das 14h, pois a candidata procurava respeitar "a dormidinha que as pessoas dão depois do almoço".
A prefeita diz que não abre mão do contato direto com a população. "A pessoa te olha no olho e precisa desabafar sobre os problemas. Esse encontro com o eleitor é mágico", classifica. Ela entende que os políticos deveriam se fazer mais presentes junto à população. "Muitas vezes nós, políticos, deixamos de ir aos lugares por medo de sermos cobrados pela população. Temos o dever de ir, mesmo sendo cobrados. A pessoa pode até reclamar que não estou conseguindo resolver algum problema da cidade, mas não vou deixar de estar presente, não serei omissa. Precisamos enfrentar as situações de cabeça erguida", aconselha.
O resultado desse trabalho na campanha veio no dia 7 de outubro de 2012, quando a maioria dos 19.285 eleitores que compareceram às urnas escolheram Tânia. Foi uma vitória apertada: 9.450 votos para ela e 8.840 votos para o ex-prefeito Gerson Schwngber (PT).
"Racismo no Brasil é velado"
Tânia Terezinha da Silva despista ao ser questionada sobre o racismo em cidades pequenas do Rio Grande do Sul. "Não posso dizer que existe nem que não existe preconceito e racismo em cidades menores", tangencia. Mas reconhece que "no Brasil, o racismo existe, mas é velado".
"A cidade não enxergou minha cor de pele, não votou em mim por ser negra, branca ou amarela" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Ela observa que, em uma cidade pequena, qualquer forasteiro é alvo de conversa nas rodas de chimarrão. "Mesmo se chegar uma pessoa loira de olhos verdes em uma cidade pequena, as pessoas se cutucam e comentam de onde ela vem e o que ela faz". A tática dela ao chegar em Dois Irmãos – numa época em sequer pensava que ingressaria na política institucional – foi esperar. "É preciso conhecer o ambiente e deixar o ambiente te conhecer. Não posso dizer que sofri preconceito devido à minha cor em Dois Irmãos", confessa.
Tânia considera que a cidade mandou uma mensagem com sua eleição. "Dois Irmãos deu um exemplo ao Rio Grande do Sul, ao Brasil e a todos nós, negros. A cidade não enxergou minha cor de pele, não votou em mim por ser negra, branca ou amarela. Votou por acreditar que podíamos fazer o melhor pela comunidade", entende.
O único ressentimento da prefeita é justamente a repercussão que sua vitória está tendo. "A eleição teve um impacto e uma mídia muito grandes, eu não esperava. Isso serve para uma reflexão: eu não gostaria que minha vitória tivesse repercussão. Eu gostaria que fosse a coisa mais normal do mundo. Não gostaria de aparecer na imprensa por ser a primeira mulher e primeira negra prefeita de Dois Irmãos", desabafa.
Tânia é uma apreciadora das metáforas. Gosta de dizer que a vida é como um rio e deve seguir um curso natural. Angustiada por não poder resolver todos os problemas da cidade de uma só vez, ela está aprendendo, em pouco mais de um mês como prefeita, que a burocracia e a administração eficiente impõem tempo aos gestores públicos.
"Muitas vezes as pessoas param na minha frente para pedir emprego ou atendimento em hospital. Temos que ter em mente o princípio da impessoalidade. O coletivo é maior do que uma pessoa pedindo melhorias. Sou cobrada já no primeiro mês, dizem que nada mudou. E sei que vou continuar sendo cobrada. Mas um edifício não se constrói de cima para baixo", diz, utilizando mais uma metáfora.
Enquanto realiza um diagnóstico sobre os problemas e soluções para Dois Irmãos, a prefeita tem muitos projetos em mente e, pelo menos, uma certeza: fará o possível para que sua mãe, que tem 84 anos, não tenha motivos para se preocupar com sua vida política.
"Na minha posse, ela ficou feliz e, ao mesmo tempo, com pena. Olhar de mãe é olhar de mãe. Sabe aquela música: 'Olha aí, é o meu guri, olha aí...'? Ela me olhava como quem pensa: 'Que bom que minha filha chegou até lá, mas coitada! Ela vai ser massacrada, vão judiar dela'.
http://www.brasil247.com/+z7s1s


























domingo, 10 de fevereiro de 2013

Um meteoro destruiu os dinossauros

Com a destruição dos grandes dinossauros surgiu a oportunidade dos mamíferos

Este poderá ter sido o antepassado comum a quase todos os mamíferos

Visão de artista do hipotético antepassado da maioria dos mamíferos CORTESIA DE CARL BUELL

Ao combinar uma enorme massa de dados genéticos e anatómicos, foi possível descrever e datar o "pai" de todos os mamíferos placentários - dos roedores aos elefantes, dos mamíferos marinhos aos humanos

A MORTE CAIU DO CÉU

Cientistas norte-americanos, holandeses e britânicos recalcularam as datas da extinção dos dinossauros e do impacto do asteróide ou cometa que deixou uma cratera de quase 180 quilómetros de diâmetro ao largo da costa de Iucatão, no México. E concluem hoje na revista Science que os dois acontecimentos - a extinção definitiva dos dinossauros, assinalada nos sedimentos fósseis, e a queda de um objecto cósmico com 10 quilómetros de diâmetro - foram simultâneos.

Estudos anteriores sugeriam que essa extinção maciça de espécies tinha acontecido uns 300 mil anos antes do cataclismo. Mas os novos cálculos, que recorreram a técnicas de datação de alta precisão, permitiram reduzir essa diferença para apenas 33 mil anos, tornando as duas datas praticamente idênticas.

O impacto aconteceu há 66.038.000 anos - e foi o "golpe de graça" para os grandes dinossauros terrestres e muitas criaturas marinhas, diz Paul Renne, co-autor, em comunicado da Universidade da Califórnia. "O impacto foi claramente a última gota, empurrando a Terra para um ponto sem retorno. Portanto, teve um papel decisivo nas extinções", salienta.

Porém, Renne adverte que "esse não terá sido o único factor". O clima global já vinha sofrendo variações drásticas há um milhão de anos, o que colocara muitas espécies à beira da extinção. "Isso tornou o ecossistema muito mais sensível a mudanças relativamente pequenas, que noutras circunstâncias teriam tido um impacto menor." A.G.

Um bichinho pouco maior do que um ratinho, focinho em ponta, dentes afiados, pêlo castanho-acinzentado, cauda longa e peluda. Pesa menos de meio quilo e alimenta-se de insectos. Desloca-se agilmente de um lado para outro. Viveu há uns 65 milhões de anos, depois de os dinossauros terrestres e os grandes répteis terem sido varridos da face da Terra.
Não é totalmente seguro que tenha sido esse o seu aspecto e comportamento exactos: ninguém até aqui encontrou os seus restos fósseis. Mas um estudo de uma equipa internacional, hoje publicado na revista Science, conclui que o antepassado comum às cerca de 5100 espécies de mamíferos que povoam o nosso planeta - e cujas fêmeas geram a sua prole dentro do útero, numa placenta - era muito provavelmente parecido com este animalzinho.
Um grupo de 23 investigadores - do Museu Carnegie de História Natural (EUA), do Museu Americano de História Natural (EUA), de várias universidades norte-americanas e de uma universidade canadiana - finalizou um projecto iniciado há seis anos (e financiado pela National Science Foundation dos EUA) designado ATOL (Assembling the Tree of Life). O trabalho é o primeiro a combinar, em grande escala, dados vindos da análise ao ADN de uma série de espécies vivas de mamíferos ditos "placentários" com dados morfológicos de espécies vivas e extintas do mesmo tipo de mamíferos. Os mamíferos placentários vão dos roedores aos elefantes, das baleias aos gatos, aos cães e aos humanos. Trata-se de facto de todas as espécies de mamíferos, excepto os marsupiais (cangurus) e um punhado de espécies que põem ovos (como o ornitorrinco).
Para além de conferir um rosto possível ao nosso longínquo antepassado primordial, os resultados hoje revelados poderão pôr fim a um debate que dura há décadas: o de saber quando é que os mamíferos conquistaram a Terra. Será que a sua "explosiva" diversificação e expansão foram desencadeadas, há menos de 65 milhões de anos, pelo facto de os dinossauros - juntamente com 70% das outras espécies - terem desaparecido na sequência da colisão de um meteorito ou de um cometa com a Terra, deixando livre um importante nicho ecológico? Ou será que, tal como estipula uma teoria concorrente, a explosão evolutiva dos mamíferos aconteceu, pelo contrário, muito antes do fim dos dinossauros e dos répteis gigantes, devido à fragmentação de um hipotético supercontinente, baptizado Gondwana, que se pensa terá dado origem aos actuais continentes e subcontinentes austrais (América do Sul, Índia, Austrália e Atárctida)?
Os novos resultados abonam a favor da primeira opção. Sugerem fortemente que, se um cataclismo cósmico não tivesse dado o "golpe de graça" aos tiranossauros, diplodocos e outros ferozes gigantes, há pouco mais 66 milhões de anos (como indica a mais recente e precisa datação desse evento, anunciada na mesma edição da Science - ver caixa), poderíamos não estar aqui para contar a história.
O problema com o ADN
A partir dos anos 1990, a genética permitiu estruturar a genealogia das espécies ao nível molecular. Só que os resultados das análises de ADN contradiziam as datações obtidas a partir do registo fóssil, fazendo aparentemente recuar, em dezenas de milhões de anos, o início da expansão dos mamíferos.
A questão é que o ADN sozinho não chega para reconstituir a história das espécies, tal como as provas genéticas forenses não chegam para resolver um crime. "Desvendar a árvore da vida é como juntar os elementos encontrados na cena de um crime", diz Maureen O"Leary, da Universidade de Stony Brook (EUA) e líder da equipa, em comunicado do Museu Americano da História Natural. "As ferramentas genéticas acrescentam informações importantes, mas também são precisos outros indícios físicos - um cadáver, por exemplo. E nas ciências da vida, são precisos fósseis e dados anatómicos. É a combinação de todos esses dados que produz a reconstituição mais informada do passado." Foi essa integração dos dois tipos de atributos, genéticos e físicos, que a equipa fez com um nível de pormenor sem precedente.
Outros estudos já tinham associado a genética dos animais a várias centenas de características morfológicas, explica um comunicado do Museu Carnegie. Mas desta vez, graças a uma aplicação Web chamada MorphoBank, acessível em www.morphobank.org, os cientistas puderam cruzar a genética com milhares de elementos multimédia (imagens, descrições, dados quantitativos, etc.) relativos uns 4500 traços físicos de cerca de 85 espécies de mamíferos placentários. "Olhámos para todos os aspectos da anatomia dos mamíferos, do crânio ao esqueleto passando pelos dentes, os órgãos internos, os músculos e até os padrões da pelagem", diz o co-autor John Wible, do Museu Carnegie.
A nova árvore da vida é a mais completa de sempre. E mostra que os mamíferos placentários surgiram rapidamente a seguir à extinção dos dinossauros, 200 mil a 400 mil anos depois do cataclismo que acabou com eles. "A nossa estimativa temporal é cerca de 36 milhões de anos mais tardia do que a estimativa puramente baseada nos dados genéticos", diz Marcelo Weksler, co-autor actualmente na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, isto sugere que a fragmentação do Gondwana não teve nada a ver com a expansão dos mamíferos. E foi também com base nos novos resultados que um artista pintou o retrato do nosso hipotético antepassado.

ANA GERSCHENFELD

http://www.publico.pt/ciencias/jornal/este-podera-ter-sido-o-antepassado-comum-a-quase-todos-os-mamiferos-26028677

A Terra e as ameaças cósmicas

 

Asteroide de 50 metros vai passar muito perto da Terra em 15 de fevereiro

Apesar de não haver riscos de colisão com nosso planeta, Nasa afirma que passagem tem maior aproximação já observada pelos cientistas

2012 DA14 - Asteroide de 50 metros vai passar muito perto da Terra em 15 de fevereiro (Foto: Reprodução/NASA)Ilustração criada pela Nasa para mostrar a Terra e um asteroide (Foto: Reprodução/NASA)

No próximo dia 15 de fevereiro, um asteroide com metade do tamanho de um campo de futebol irá passar a apenas 28 mil quilômetros da superfície da Terra - distância considerada pequena para a astronomia. Não há perigo de colisão com nosso planeta, mas o corpo espacial, chamado de 2012 DA14, chamou a atenção da agência espacial americana (Nasa). 

“Essa é uma passagem com aproximação recorde”, disse Don Yeomans, cientista do Near-Earth Object Program, programa que ajuda a encontrar e rastrear objetos próximos ao planeta Terra. “Desde que as pesquisas espaciais regulares começaram na década de 1990, nós nunca vimos um objeto tão grande como esse passando tão perto da gente.”

O 2012 DA14 é provavelmente formado por pedra e mede cerca de 50 metros de largura - um tamanho considerado médio, já que asteroides podem ter a dimensão de uma bola de futebol, ou até mesmo ser grandes rochas com muitos quilômetros de largura. Yeomans estima que asteroides semelhantes ao DA14 passem próximo à Terra de 40 em 40 anos.

Meteor Crater ("Cratera do Meteoro", em português), localizada no Arizona, Estados Unidos (Foto: Reprodução/NASA)Meteor Crater ("Cratera do Meteoro", em português),
localizada no Arizona, Estados Unidos
(Foto: Reprodução/NASA)

Segundo a Nasa, o impacto de um asteroide de 50 metros de largura com o nosso planeta não traz grandes riscos, exceto aos que estão imediamente embaixo dele. A cratera conhecida como “Cratera do Meteoro” (foto ao lado), em Winslow, Arizona, nos Estados Unidos, foi formada pela colisão de um objeto de tamanho semelhante há 50 mil anos. 

Ainda assim, Yeomans garante: “2012 DA14 definitivamente não vai atingir a Terra. A órbita do asteroide é conhecida bem o suficiente para descartarmos um impacto”. Mas, de fato, passará bem perto de nós. O cientista afirma que o asteroide vai cruzar a região onde a Estação Espacial Internacional e muitos satélites de observação estão localizados. Porém, “as chances de um impacto com um satélite também são muito remotas”.

Segundo Yeomans, quando o asteroide passar perto da Terra, em 15 de fevereiro, será possível ver sua luz brilhante apenas por meio de telescópios. Ainda assim, a visualização do evento requer certa prática, já que a velocidade do objeto será muito rápida. Infelizemnte, “somente os astrônomos amadores mais experientes terão sucesso”.

http://revistaepoca.globo.com/Ciencia-e-tecnologia/noticia/2013/01/asteroide-de-50-metros-vai-passar-muito-perto-da-terra-em-15-de-fevereiro.html

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Cartas de Domigos Jorge Velho

 

Bandeirante conta como destruiu Palmares ( 1694)

 

Serra da Barriga Vista 6 2

1694

Destruição de Palmares

Durante quase cem anos, o quilombo dos Palmares, na serra da Barriga, hoje estado de Alagoas, resistiu às expedições militares enviadas pelos senhores de engenho e autoridades brancas, fossem elas portuguesas ou holandesas. Inicialmente, o quilombo não passava de uma pequena aldeia, com apenas algumas dezenas de escravos fugidos das plantações de açúcar da região. Mas cresceu a tal ponto que, em 1670, contava com 50 mil habitantes, em dezenas de vilas fortificadas, espalhadas por vasta área. Temendo que o exemplo de Palmares terminasse inviabilizando o regime de trabalho escravo, o governo português determinou sua liquidação a qualquer custo. O bandeirante paulista Domingos Jorge Velho foi contratado para levar a cabo a missão, recebendo carta branca das autoridades. Palmares deixou de existir em fevereiro de 1694, com o massacre de seus defensores, mas o chefe dos quilombolas, Zumbi escapou ao cerco e ainda resistiu nas matas por mais um ano, até ser morto. As cartas abaixo, de Domingos Jorge Velho, informam às autoridades sobre o cerco e a destruição de Palmares.

Primeira carta

“ ... Certifico que assistindo neste sertão do Palmar, fazendo guerra aos negros levantados que nele habitam, vendo-os fortificados com uma cerca tão grande e com inumerável poder deles juntos dentro dela, me foi forçoso pedir ao senhor governador e capitão general Caetano de Melo e Castro me socorresse com gente para poder de uma vez acabar com os ditos negros, e o fez o dito senhor tão prontamente que com todo o segredo e brevidade chegou o dito socorro de gente paga e ordenanças em 15 de janeiro e a 16 marchei a pôr em sítio o dito negro que constava a sua cerca de uma légua em roda, e me pus em um plaino sobre a dita serra, e na fronteira de outro plaino mandei a situar o capitão-mor Bernardo Vieira de Melo por ser a parte de mais risco. (...) e por indústria sua fabricou uma cerca com os escravos e soldados em roda da dos ditos negros que constava de duzentos e setenta braças de pau-a-pique a cuja imitação foram os mais cabos fazendo o mesmo nas suas testadas que defendiam sendo por esta sua indústria lograda a melhor segurança do dito sítio, sendo em 23 do dito mês que fiz a primeira avançada ao dito negro que não pude romper nem chegar à dita cerca pelos inumeráveis fossos e estrepes que tinham (...).

Outeiro do Barriga em 30 de janeiro de 694

Domingos Jorge Velho

Segunda carta

“Certifico que assistindo neste sítio e cerco em que pus aos negros levantados do Palmar depois de estarem em sítio vinte e dois dias no último em que se contavam os ditos vendo-se o dito negro oprimido do dito cerco se resolveu a romper com todo o risco albaroando por duas partes a em que estava o capitão-mor Bernardo Viera de Melo que os rechaçou por estilo que os fez obrigar a despenharem-se por um rochedo, tão inopinável que os mais deles pereceram e se espedaçaram pelo dito rochedo, obrigados das cargas com que os veio sacudindo o dito capitão-mor com sua gente, sendo em duas horas depois da meia-noite, que logo a essa começaram os seus a matar e aprisionar os ditos negros, que ainda lhe feriram três homens com as cargas que lhe deram, dois de balas e um de flecha; e o dito capitão-mor em todo esse dia, desde as ditas duas horas depois da meia-noite, lidou com todos os seus no alcance do dito inimigo, aprisionando e matando muitos, e veio pessoalmente a buscar-me para que desse pessoalmente calor no alcance do dito inimigo o que fiz e em minha companhia andou com tal desvelo e cuidado que não havia cousa que não soubesse advertir e prontamente acudir e se recolheu ao seu posto ao pôr-do-sol com cinqüenta e oito pessoas que me mandou entregar sendo muitos os mortos que os seus pelas brenhas mataram, e no tal dia ainda se lhe estreparam dois homens no alcance do dito inimigo em cujo alcance se mataram mais de duzentos negros e se aprisionaram perto de quatrocentos (...).

Outeiro do Barriga em 8 de fevereiro de 694.

Domingos Jorge Velho”

Terceira carta

“Certifico que depois do sítio em que pus os negros do Palmar na última desesperação, da qual se urgiu a sua total destruição, em a qual se houve o capitão-mor Bernardo Viera de Melo com todo o valor, zelo e boa disposição, no seguinte dia, que foi em o de 7 de fevereiro lançou a primeira tropa em que mandou toda a sua gente que achou capaz de seguirem o alcance de alguns negros que pudessem ter escapado por entre os matos e andaram dois dias correndo a campanha por muitas brenhas e serras, e degolaram aos que puderam pelas tais brenhas descobrir, e trouxeram duas negras prisioneiras, que por mulheres lhes perdoaram a vida (...).

Outeiro do Barriga 9 de fevereiro 1694.

Domingos Jorge Velho.”

Franklin Martins

http://www.franklinmartins.com.br/estacao_historia_artigo.php?titulo=bandeirante-conta-como-destruiu-palmares-1694

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Rei Ricardo 3º encontrado no estacionamento

Cientistas confirmam ter achado esqueleto do rei Ricardo 3º na Inglaterra,o rei corcunda descrito como um tirano corcunda por Shakespeare

 

Crânio e retrato de Ricardo 3º (Fotos: Universidade de Leicester e Jeff Overs e coleção da Society of Antiquaries de Londres)

A BBC ganhou acesso exclusivo às imagens do esqueleto do rei inglês Ricardo 3º. Os ossos foram desenterrados por arqueólogos no ano passado. Nesta segunda-feira, após inúmeros testes, a identidade foi confirmada.

  • Esqueleto (Foto: Universidade de Leicester e Jeff Overs)
  • Coluna (Fotos: Universidade de Leicester e Jeff Overs)
  • Crânio (Fotos: Universidade de Leicester e Jeff Overs)
  • Especialista examina esqueleto (Fotos: Universidade de Leicester e Jeff Overs)
  • Os ossos do rei

Cientistas britânicos confirmaram nesta segunda-feira que um esqueleto encontrado em um estacionamento na cidade inglesa de Leicester é do rei Ricardo 3º, que governou o reino da Inglaterra no século 15.

Retratado por Shakespeare como um tirano corcunda, Ricardo foi morto na Batalha de Bosworth, em 1485, mas seus restos mortais haviam se perdido com o tempo.

O esqueleto – que apresentava a coluna curvada – foi encontrado em setembro. Desde então, arqueólogos vinham realizando inúmeros testes para comprovar sua identidade.

Agora, cientistas da Universidade de Leicester disseram que o DNA encontrado nos ossos corresponde ao dos descendentes do monarca.

Os restos do rei serão agora enterrados na Catedral de Leicester.

Escoliose

O arqueólogo que liderou a pesquisa, Richard Buckley, disse que os ossos foram submetidos a "estudos acadêmicos rigorosos".

Foi concluído que os ossos pertenciam a um homem que em torno de 30 anos. Ricardo 3º tinha 32 quando foi morto.

Seu esqueleto mostrou sinais de dez ferimentos, incluindo oito no crânio – dois deles potencialmente fatais.

Ricardo 3º costumava ser retratado por alguns historiadores como uma pessoa "deformada" – e realmente, pelo esqueleto, pode-se observar que sua coluna era bastante curvada por causa de uma escoliose.

No entanto, não foram encontradas indícios de outros problemas descritos pelos estudiosos em caracterizações exageradas do rei.

Esquecimento

Em 1483, logo após a morte de seu irmão, Ricardo foi nomeado como tutor de seu sobrinho, Eduardo 5º. Mas, em vez disso, Ricardo assumiu o poder.

Após apenas dois anos, ele foi morto na batalha de Bosworth, após ser desafiado pelo futuro rei Henrique 7º.

Segundo os especialistas, o rei Ricardo 3º foi enterrado às pressas em uma igreja no centro de Leicester, sem sinal de que um caixão foi usado.

A igreja foi demolida no século 16, e a localização da cova acabou sendo esquecida nos séculos seguintes.

No entanto, um grupo de entusiastas e historiadores conseguiu rastrear a área provável da sepultura. Eles também conseguiram, após uma análise genealógica minuciosa, encontrar um descendente do rei para comparar o DNA.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/02/130204_galeria_richard3.shtml

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Legião Negra participação na Revolução de 32

NEGROS NA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 32: A LEGIÃO NEGRA

Negros na Revolução Constitucionalista de 32. Uma história a ser lembrada

TAGs: A Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932, Milton Gonçalves, Oswaldo Faustino, Revolução Constitucionalista de 32, Tião Mão Grande

Tenho dedicado nessa coluna a expor aqui algumas produções culturais da periferia o que engloba os que não tinham voz e que agora produzem o que há de mais interessante. São criativos e revelam uma faceta que a grande historia a dos vencedores, não contempla. Quero destacar aqui a Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932. A participação voluntária de um grande número de afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932, contra o regime de Getulio Vargas. Assim como alguns filmes que trataram da participação dos negros na Guerra de Secessão nos Estado Unidos, do esquadrão de aviadores negros americanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial e dos soldados africanos das colônias francesas que também lutaram contra o eixo, os nossos negros não foram indiferentes. Penso que o que move essa participação, seja lá qual for o lugar no mundo, existe um sentimento de pertencimento, de pertencer a algum lugar. Fazer parte de uma sociedade mesmo que o segregue. Estava mais motivado que os outros soldados. Estavam imbuídos de lutar por uma liberdade que buscavam. A guerra impõe ao homem ultrapassar os seus limites para sobreviver e precisa do outro para se manter vivo seja o outro branco ou preto. São essas historias que precisam ser contadas.

Entre julho e outubro de 1932, milhares de paulistas lutaram contra a ditadura de Getulio Vargas, instituída dois anos antes. Entre os objetivos dos revoltosos estavam a promulgação de uma nova Constituição e a deposição de Vargas. Muito já se contou sobre esse episódio, mas em A Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932 (Selo Negro Edições, 224 p., R$ 50,90), do jornalista Oswaldo Faustino, um ângulo quase inédito do episódio é apresentado: a brava atuação de uma legião formada, a princípio, por três batalhões voluntários compostos exclusivamente de afro-descendentes.

A idéia para o livro surgiu quando o ator Milton Gonçalves contou a Faustino que gostaria de fazer um filme sobre a Legião Negra e pediu ao escritor que pesquisasse o assunto. Recorrendo a documentos e publicações de época, obras acadêmicas e entrevistas com familiares dos combatentes, Faustino entrou em contato com a história de personagens reais que, no romance, interagem com os concebidos pelo autor. A pesquisa permitiu-lhe também reconstruir o contexto social, cultural e econômico da São Paulo da década de 1930 – ora em situações conflituosas, ora em aparente harmonia, se inter-relacionavam paulistas quatrocentões, negros, mestiços, imigrantes europeus e migrantes oriundos principalmente de Estados do Nordeste. Cada qual com seus costumes e em espaços determinados, é verdade. Aos negros e pardos restavam apenas os cortiços, porões e subúrbios, as rodas de tiririca, o jogo ilegal e os biscates.

O livro começa apresentando ao leitor o centenário Tião Mão Grande, que nos dias de hoje relembra sua participação, como voluntário, na Revolução de 1932. Sua memória recupera episódios e personagens que mudaram sua vida e a dos paulistas para sempre: alguns reais, como Maria Soldado, empregada doméstica que decidiu engrossar as fileiras revolucionárias; o advogado Joaquim Guaraná Santana e o grande orador Vicente Ferreira; outros fictícios, mas inspirados em arquétipos históricos, como Teodomiro Patrocínio, protegido de uma rica família que de início renega a ascendência africana e a negritude, mas depois se torna um grande líder militar da Legião Negra; Luvercy, jovem negro alistado contra a vontade pelo próprio pai, também combatente de ideais patrióticos; John, um jamaicano foragido dos Estados Unidos, que também participava das lutas antirracistas e convivia com pensadores naquele país, como seu conterrâneo Marcus Garvey.

A cada capítulo, Faustino recria os valores de uma época pautada pelo patriotismo, mas também por um intenso preconceito racial. Um dos méritos do livro é mostrar que, apesar de alijados de direitos e com chances mínimas de ascensão social, milhares de negros aderiram a uma causa estranha à sua realidade – causa que, embora justa, traria ínfimas mudanças à sua situação de excluídos.

“Poucos brasileiros sabem que esses bravos batalhões existiram. Infelizmente, o protagonismo negro continua fora da história oficial”, afirma Faustino. Por conta disso, um dos objetivos do autor foi criar uma obra acessível à juventude brasileira. De acordo com o escritor e compositor Nei Lopes, que assina o prefácio da obra, “A Legião Negra rompe com paradigmas, enganos e preconceitos, ajudando a reconstruir a história dos afro-descendentes com seriedade e dignidade”.

http://avisoemdois.com.br/divirta-se/negros-na-revolucao-constitucionalista-de-32-uma-historia-a-ser-lembrada/

Legião Negra

Oficiais da Legião Negra e acima 13 índios acantonados na Legião Negra

Logo que eclodiu o movimento militar contra Getúlio em São Paulo, organizou-se um corpo combatente de voluntários de cor (na época isso queria dizer preto e pardo). Este batalhão tomou o nome de Legião Negra.

Soldados e Oficiais da Legião Negra

Legião Negra de Soldados e Enfermeiras

Batalhão Negro nos campos da Revolução de 1932

Piracicabanos combatentes na Legião Negra: da esquerda para a direita - Domingos de Campos; Francisco Sampaio; Ormindo de Camargo e Oscalino da Costa.

Fonte:http://voluntariosdepiracicaba.blogspot.com.br/2011/11/negros-na-revolucao-constitucionalista.html

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

SP precisa colocar 'dedo na ferida' e assumir discriminação racial

Para Netinho, SP precisa colocar 'dedo na ferida' e assumir discriminação racial

Secretário vai investir no combate à violência contra a juventude negra da periferia, em políticas de cotas e em valorização dos negros no mercado de trabalho

 

Para Netinho, SP precisa colocar 'dedo na ferida' e assumir discriminação racial

Secretário disse que será criado o conselho municipal de combate ao racismo, onde a sociedade civil terá participação garantida (Foto: Gerardo Lazzari/RBA)

São Paulo – O combate à violência contra a juventude negra na periferia de São Paulo, a adoção de cotas raciais para o serviço público e a gestão junto ao empresariado para equiparação de salários entre bancos e negros são alguma das ações previstas pela nova Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial do município, criada pelo prefeito Fernando Haddad (PT).

Netinho de Paula, vereador eleito pelo PCdoB, assumiu a pasta com a missão deviabilizar este e outros programas. Ele pleiteia um orçamento de R$ 150 milhões e aponta a autonomia financeira como um reconhecimento da luta do movimento negro, que durante 20 anos teve uma coordenadoria no poder municipal, mas nunca contou com receita própria. 

Com 42 anos, Netinho trocou o segundo mandato na Câmara pelo cargo de secretário e afirma que a cidade de São Paulo precisa "colocar o dedo na ferida" e assumir que nos negros são discriminados e excluídos dos espaços locais de poder. Este segundo ele, é o primeiro passo para os problemas sejam resolvidos.  

Confira abaixo entrevista exclusiva de Netinho à RBA:

Quais serão as principais atribuições da secretaria?

Esta secretaria surge como fruto de um amplo diálogo com a sociedade e particularmente com a luta do movimento negro nos últimos anos. Nós tínhamos uma coordenadoria, a exemplo do que acontece na grande maiorias das cidades Brasil afora. Geralmente uma coordenadoria sem muita estrutura, sem muito poder de ação e tendo que trabalhar somente demaneira transversal, sem dotação orçamentária e sem ter uma linha programática. É neste sentido que o prefeito Fernando Haddad mais uma vez sai à frente tornando a antiga Coordenadoria dos Assuntos da População Negra (Cone) de fato uma secretaria que tem a atribuição principal de provocar na sociedade paulistana a discussão da igualdade racial. Colocar odedo na ferida de qual é a importância da população negra na formação da cidade e o por que que esta população negra se encontra hoje tão excluída das instâncias de poder na cidade. Esta é a principal atribuição desta secretaria.

E quais eixos vão nortear o trabalho do senhor na secretaria?

Temos alguns eixos estruturais. O primeiro deles é dar maior poder à juventude e à mulher negra. O segundo é a implementação da Lei 10.639, que tornou obrigatório desde 2003 o ensino de história e cultura afrobrasileira na educação fundamental do país, que ganhou corpo desde 2007, mas que muito pouco foi feito para a implementação. E o terceiro é o turismo étnico na cidade de São Paulo. Também vamos trazer para São Paulo o programa Juventude Viva, tendo em vista o alto índice de violência que atinge a juventude negra na periferia de São Paulo. Este programa foi um grande experimento do governo federal em Alagoas, no qual foram tratadas questões que são endêmicas, como a escola, a violência, a oportunidade de emprego. Para isto nós contamos com a participação do governo do Estado porque eu faço questão que jovens que estão na Fundação Casa participem, que a grande maioria é de jovens negros.

O que a secretaria vai fazer em relação ao combate ao preconceito?

Se nós conseguirmos implantar parte da Lei 10.639, que é uma luta histórica do movimento negro, quanto ao material e o ensino sobre a africanidade e dos afrobrasileiros, com material aprovado pelo Ministério da Educação (MEC), e conseguirmos entregar este material para as crianças e jovens no município de São Paulo será um grande avanço no combate ao preconceito. Tratar a questão étnica e a autoestima é um grande avanço. Outra frente são as incubadoras para dar maior poder à população negra. Queremos fazer parcerias com as empresas que fornecem produtos para a prefeitura e colocar a juventude negra para produzir e fornecer para que, no futuro, possam participar das licitações da prefeitura como empreendedores. Estas são algumas ações que a secretaria vai encabeçar para tornar mais economicamente ativa a população negra de São Paulo.

Com relação à violência e a desigualdade no mercado de trabalho, qual será a estratégia da secretaria?

O programa Juventude Viva trata do combate à violência e para que possamos implementar ações contra a violência vamos precisar da ajuda do secretário de Segurança do Estado, portanto o governador tem que participar. Nós já acionamos o Gilberto Carvalho (ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República), que é o representante do governo federal. Este é um apelo feito pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, mas vai contar com a participação deoutras secretarias, como a Secretaria de Direitos Humanos e Participação Social. No programa das incubadoras nós estamos tratando de fortalecimento real, economicamente. Nós temos na próxima semana um encontro com o Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) para discutir de que maneira a indústria possa participar ativamente da evolução econômica do povo negro.

Como será o relacionamento com os movimentos sociais?

A melhor maneira que nós encontramos de ouvir a sociedade além da questão de coletar denúncias de racismo e preconceito foi a criação de um Conselho Municipal. A partir do momento em que a Secretaria de Promoção da IgualdadeRacial tiver sua implementação aprovada pela Câmara, nós vamos criar um o Conselho Municipal onde a sociedade civil terá, de maneira ativa, a participação na secretaria.

O sr. anunciou como uma das metas da secretaria a criação de um canal de comunicação para promover a igualdade racial. Como será este projeto?

Quando eu recebi o convite para assumir a secretaria eu falei para o prefeito sobre a dificuldade para mostrar a visão étnica da população negra tendo em vista que os órgãos de comunicação são majoritariamente compostos por pessoas brancas, e que elas fazem uma comunicação com a visão delas, inclusive sobre a discriminação. E que nós precisamos ter um espaço para mostrar a nossa visão. O prefeito entendeu e acolheu este pedido. Assim que tivermos a lei criando a secretaria nós vamos criar mecanismo para abastecer com conteúdo nacional e com parcerias internacionais com outras TV educativas, de países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, EUA e África do Sul, por exemplo, onde possamos tratar sobre a questão da discriminação a partir da nossa visão de mundo.

Como será o projeto para a implementação do turismo étnico?

Isto nós vamos ter que discutir com a SPTuris. Mas, a priori, queremos marcar os pontos étnicos de São Paulo. Nós temos, por exemplo, Bela Vista e Liberdade que são bairros que tiveram grande concentração de negros após a abolição, temos vários lugares com grande concentração da população negra. Temos o Largo do Rosário, a Igreja da Mãe Preta e vários outros pontos onde a população negra contribuiu ativamente na formação da cidade de São Paulo. A exemplo do que aconteceu com os orientais, imigrantes italianos. A amplitude e o tamanho de São Paulo requer este turismo étnico e passear por estes pontos será uma vantagem a mais para os turistas que vierem para São Paulo.

Como sr. vê sua indicação para este cargo?

É um privilégio. A questão étnica sempre acompanhou a minha vida, a minha pauta, desde a minha vida artística, no Negritude, minha atuação na Câmara, na campanha eleitoral de senador e agora poder transformar todos os questionamentos em política pública e trazer este debate para a sociedade é um privilégio que eu pretendo desempenhar com a maior grandeza possível. Não depende só de mim e eu pretendo contar com o apoio dos movimentos sociais, dos partidos políticos e dos políticos em geral da cidade. Tratar da questão da discriminação e do preconceito requer, antes demais nada, uma autoanálise. A cidade primeiro precisa se assumir como preconceituosa para depois tratar isso, que eu considero uma doença.

Pesquisa do IBGE aponta que 63,7% da população brasileira reconhece que a cor ou raça influencia a vida das pessoas e que o trabalho é área mais atingida. Como o sr. pretende atuar para combater a desigualdade no mercado de trabalho?

Estes índices mostram bem como é a exclusão da população negra nas esferas de poder. Nós precisamos passar por uma ampla campanha de conscientização. Isto é prioritário na cidade de São Paulo. Antes de adotar a política de quotas no funcionalismo público, que é uma política que nós defendemos, que tem o apoio do prefeito Fernando Haddad, e pretendemos implantar, ou ampliar as quotas nas universidades públicas, este um debate já ganho na sociedade, se não conscientizar de que existe esta diferença, a gente não consegue tratar. Por isto nosso papel é também o de chamar todas as secretarias municipais para uma ampla campanha de conscientização.

Na cidade de São Paulo, segundo pesquisa da Fundação Seade, os trabalhadores pardos e negros recebem salário correspondente a 61% da remuneração dos não negros. Como a secretaria vai atuar nesse ponto?

Eu acho que é possível, mas nenhum empresário vai admitir que paga menos para os funcionários negros. É preciso ir paradentro da empresa dele, ele precisa aceitar que eu vá, que a Secretaria vá até lá, e mostre que isto ocorre na empresadele. Você não vai encontrar em São Paulo ninguém que fale: eu sou racista. Este é o tipo de racismo mais institucional que existe e é por isto que o negro sofre tanto. Esta diferença a gente vê na qualidade de vida, na instância econômica. É por isto que eles estão na periferia, nas piores casas, nos piores cargos. Na semana que vem nós vamos nos reunir com o Paulo Skaf para debater com os empresários o que já é uma constatação no campo empírico, que são os resultadosdestas pesquisas. A partir do momento que temos em mão estes índices e os empresários, por meio de parceria entre a secretaria e a iniciativa privada, sejam sensibilizados sobre isto, acho que podemos reverter isto, em São Paulo, com reflexos para todo o país.

O sr. acha que a política de quotas pode reverter este quadro?

O processo de ingresso nas universidades pelo sistema de quotas é recente. Ainda temos muitos jovens negros que não concluíram o curso universitário. A entrada de jovens na universidade é grande, mas ainda há muitos problemas e há mecanismos que precisam ser aperfeiçoados. Na Câmara, por exemplo, nós constatamos que muitos jovens negros, bolsistas do Prouni, enfrentam dificuldades para ir à universidade por causa das tarifas do transporte público. Precisamos garantir além do acesso à universidade, também que estes jovens possam concluir os cursos. A questão não é mais só sobre falta de mão de obra qualificada para justificar esta diferença. A grande questão é saber o que a indústria tá fazendo para reverter isto. Se o empresário se incomoda em não ter negros nas instâncias de maior poder de sua empresa, a pergunta é o o que ele está fazendo para reverter isto? Que tipo de parceria ele pode fazer com o setor público para que a empresa dele possa receber a mão de obra negra. Será que de fato ele está incomodado com esta diferença ou ele se acomodou e é só mais um dado nestas pesquisas? Esta é a grande questão. Eu acho que esta é uma das funções da secretaria, fomentar, instigar e acima de tudo provocar o debate. Fazer com que a sociedade venha participar da mudança.

Na trajetória política do sr. tanto na Câmara como no secretariado, são lugares onde o número de negros é bem menor do que o de brancos. Qual a saída para diminuir esta diferença?

Isto passa, necessariamente, por uma política de quotas no funcionalismo público. Objetivamente é isto. A cidade de São Paulo não está preparada para assumir abertamente o debate sobre quotas no funcionalismo público, mas a secretaria tem obrigação de provocar este debate. E isto passa pelas instâncias políticas, não só interna da prefeitura, mas também entre as lideranças partidárias dos mais variados partidos. As campanhas de sensibilização tem objetivo justamente disto, dechamar atenção para setores onde o negro ainda encontra a invisibilidade. Por isto, nesta questão específica não tem outro jeito, a política de quotas no serviço público vai ter que ser uma das pautas da secretaria. E o início desta pauta é campanha de conscientização que vamos fazer.

O sr. disse que pretende criar um conselho municipal para promoção da igualdade racial. Como será este conselho?

Já existe um conselho estadual e o conselho municipal existe, mas não é muito representativo e o que nós queremos é dar força para este conselho municipal.

Como será a relação da secretaria municipal com a secretaria do governo federal?

Acho que as inciativas da secretaria vão encontrar apoio e amplitude aqui na cidade de São Paulo, tendo em vista a possibilidade orçamentária. Muitas das ações que a Seppir não consegue implementar por falta de verba, nós poderemosdesenvolver. Muitos dos projetos da Seppir foram desenvolvidos na Cone e nós vamos dar vazão aos projetos da secretaria nacional. Vamos atuar como uma ponte entre a Seppir e a cidade de São Paulo.

Jovens negros do sexo masculino estão entre as maiores vítimas da violência no país e foram a maioria das pessoas mortas entre setembro e novembro do ano passado em uma das piores crises de segurança que São Paulo já teve. Como a secretaria vai combater isto?

A exclusão social está intimamente ligada à violência contra a juventude negra. No momento em que eu sentei com o prefeito Haddad para conversar sobre o convite para assumir a secretaria, a primeira coisa que eu fiz ligar para o Gilberto Carvalho e conversar sobre a intenção de trazer o Juventude Viva na cidade de São Paulo. Ele é único programa público, completo, capaz de brecar os índices de extermínio da juventude negra na periferia de São Paulo.Eu não vejo nenhuma outra maneira de trabalhar para isto sem ter o apoio do governo federal e do governo estadual. A única maneira é por meiodesta participação e o papel da secretaria será fazer esta ligação. Junto com a Secretaria de Direitos Humanos, poder agregar as demais secretarias municipais, trazer a secretaria estadual de segurança e ter a secretaria-geral da União. Trazer um programa desta magnitude, que envolve não só a prevenção para evitar que os jovens ingressem em situaçõesde delito, mas também aqueles que já se envolveram, como os internos da Fundação Casa, e que precisam de uma oportunidade. Eu acho que o Juventude Viva tem tudo para dar certo em São Paulo e é a maior aposta para a juventudenegra de São Paulo.

O sr. considera a violência contra jovens negros o pior problema a ser enfrentado?

Sem dúvida. Não há nada pior que ver uma mãe chorando porque seu filho não existe mais. O fato de ter acontecido a morte, ter acontecido o extermínio é porque todas as políticas falharam. Desde segurança pública até a assistência social. A gente não acredita que o menino que hoje está na Fundação Casa está lá porque ele quer isto e porque tem prazer em estar lá. Se o poder público não interceder, este menino quando sair, volta para lá, ou para um presídio ou morre. É preciso quebrar isto.

Como o sr. pretende trabalhar com movimentos sociais que combatem este tipo de violência?

A secretaria vai, por meio do conselho municipal, buscar fortalecer o contato e trazer estes movimentos e, em alguns casos também, incentivar.

Por: Raimundo Oliveira, da Rede Brasil Atual

http://www.redebrasilatual.com.br/temas/politica/2013/01/para-netinho-violencia-contra-jovens-negros-e-maior-problema-a-ser-enfrentado